Sentiu a gota de suor frio escorrer por entre seus dedos, enquanto calçava o sapato de seu lado direito dominante. O olhar afásico refletido na sombra da janela de madeira vermelha, com suas abas que corriam toda a extensão de seu perímetro. Por muitas vezes elas davam a impressão de braços longos e maternais transbordando um afeto inerte. Longos segundos examinando minuciosamente todo o artefato consumiram parte de seu destino. Peças metálicas, roldanas minúsculas presas por cordões umbilicais de amianto, dispositivo em forma de bolha gástrica em saponáceos alcalóides de alta tensão. Ele examinava tudo minuciosamente e sabia que qualquer descuido poderia ser grave nesse minuto.
Levantou-se e tentou caminhar. Lentos passos barbiturizados da isquemia cerebral proporcionada pelas suas lembranças. Não havia espaço para que percorresse toda a sua vida em segundos. Outrora ouvia histórias de semelhantes seres que na hora do chamado, traziam dentro de suas almas polaróides cinemáticas de vida. Mas não ele, pois era inerte...
Dentro de seu peito apenas um tique taquear de longos suspiros, esparramados em suas duas luvas plásticas pesadas que acomodavam suas mãos trêmulas.
Por mais vontade, não acendeu o cigarro que confortaria seu peito por entre o sangrar de lágrimas. Estava tentando parar.
Em minutos sentia todo o ar da fechada sala milimetricamente correr por seus poros e dissecar cada pedaço daquela sombra que um dia foi algo chamado corpo. Seus pés pronavam ondulações pelos azulejos, que continham desenhos geométricamente postos em sicronia com sua coloração sépia. Sentia seus dedos por dentro das botas, que chegavam até a linha do terço médio de suas pernas, amalgamarem cada centímetro de chão e sabia que enfim sua mobilidade aos poucos voltara. Impávida e atraindo os círculos de poeira cósmica que pairavam por entre as frestas de ar daquele domingo de sol.
Mas algo se fazia descolorir dentro de sua alma e nem ao menos ele poderia dizer o significado para tamanha ilusão de ótica. Tudo ao seu redor enquanto os minutos passavam, tornavasse cada vez mais preto e branco. Coçou seus olhos com as luvas de proteção, mas as imagens não voltavam à coloração normal. Ao olhar para o espaço formado entre a porta e o chão, percebeu que os reflexos também tornaram-se uma tela de cinema dos anos 20. Ouvia o rufar de trompetes e saxofones de uma orquestra regida por um senhor calvo e de alinhado fraque. Balançando sua varinha mágica, enquanto a banda destoava canções caleidoscópicas que penetravam ouvidos de casais vestidos à carater. Um salão enorme ecoava cada clave de sol ao máximo de distorção, onde os passos de dança de um concurso lisérgico, mostravam sorrisos distorcidos e enormes arcadas.
Nesse momento ele sorri, cumprimenta os vencedores e sai pela porta talhada pelas mãos do madeireiro preciso que a construira. Deixando nas laterais detalhes em curvas que formavam espirais descendentes e trôpegas.
Ao fechar a porta seu peito dispara e sabe que não mais voltará, tem a certeza da ida. O suor agora congelado em pedaços de cabelo corrói cada brônquio e espera calmamente sua hora de expiração.
Ele então atravessa a rua cuidadosamente, reve seus passos e como por mágica adentra no primeiro ônibus que vê. Sem destino, sem rumo, sem casa, perdido dentro de memórias que apavorariam o mais corajoso dos seres.
Olha ao redor, rostos julgadores de caráter. Seres semelhantes e tão distantes em afasia, ódio e preconceito. Ele levanta-se e suspira por uma última vez....
"Morram seus conceitos parvos de verdade!!!!!"
O botão pressionado explode, um centímetro acima de sua prega umbilical uma pequena agulha penetra por sua epiderme lentamente, sente-a transpassar por cada milímetro de célula rasgando mitocôndrias que desesperadas excretam pavor pela corrente sanguínea. A agulha loja-se na segunda dobra do intestino delgado e inicia uma série de mitoses que desencadeiam na explosão do útero de alumínio, fazendo com que milhares de outros pequenos objetos perfurantes metalizados comecem uma dança de acasalamento dentro dele. Em seu estômago já não há mais espaço para perfuradoras, que iniciam o caminho de volta da agulha mãe e extravasam da pele para o meio.
Sente cada pedaço de tecido esticar-se e queimar por entre as estocadas perfurantes. Como se pedaços de vidros quentes brotassem por entre sua pele, esparramando sangue, orgãos e vísceras incandescentes ao redor de todos os atônitos ocupantes do ônibus.
Em um total de oito quilos de explosivos, cada nova detonação era sentida em suas entranhas como nascimento de novas agulhas.
Em sua retina grudada de ponta cabeça a memória que ressoava era a polaróide de uma janela de madeira vermelha, onde as tábuas que formavam o desenho quadrilátero do objeto pareciam sorrir em sua direção.
Uma gota de suor aliviante esfriava seu corpo incinerado.....