terça-feira, 14 de setembro de 2010

O ARPÉGIO DOS PEIXES ESTRANHOS

E ela já sabia desde sempre o quanto ruim o mundo poderia ser, mas foi essa percepção que a salvou.
Não apenas a escada. O sangue ainda é fresco e com sabor de novo, mesmo tendo se passado tanto tempo daquele dia de outubro.
Onde sentiu pela primeira vez como é ter sua carne cortada pela audácia malvada de outra menina.

Ela lembra-se de todos os detalhes, a voz esganiçada lhe dizendo todas as palavras que pesavam em seus ouvidos. Todos os gestos que a faziam lembrar que ela não tinha um reflexo, apenas a silhueta de um seio. Em sua boca, para alimentá-la, os toques exageradamente bruscos. Em direção de seu rosto, o corte por entre suas sombrancelhas e pálpebra. Fazendo-a derramar aquilo que fazia dela alguma coisa, algo em que se apoiava.
Seu dna, sua marca espalhando-se por entre seu rosto e pingando no chão. Desesperado para ser parado, coagulando toda a sua insentatez. Deixando que todas as hemácias levassem aquilo que era mais importante embora.

Ela se lembra de ver todas as meninas indo embora cuspindo pelo chão e em especial uma última que ao sair fez com que a saliva dela se misturasse ao seu sangue no chão. Mostrando que apenas a mistura do escarro a faria uma igual e mesmo assim cheia de cortes.
Foi aí que as coisas tornaram-se mais claras.

Através de todo o sagramento ela se abaixou e começou a desenhar traços vermelhos e brancos.
Apertava cada vez mais o corte porque todo o sangramento que espurgava dela dava-lhe vida. Fazia com que ela conseguisse um melhor ângulo, uma melhor sombra, o melhor traço. Assim se fez.

Todas as rosas que ela podia imaginar cobrindo seu corpo machucado. As nuvens em que se deitaria depois de sentir todo seu líquido sublimar. Todos os sorrisos que ela sentia secretamente, embaixo da escada. Tudo era desenhado e saia de dentro dela, mesmo ouvindo baixinho que "if you feel discoureged there´s a lack of colour here......"
Ela sabia que essa era a única maneira de escapar. E issa era somente dela.
Sentia toda a aflição de sangrar, mas estancaria todas as feridas com os desenhos que ela fez no chão. Peixes estranhos de cores derivadas de todo o vermelho. Eles se movimentavam e lhe sorriam, os traços nervosamente doces e platônicos em um arpégio indefinível. E tudo se fazia na mais perfeita ordem.

Ela desenhou o mundo, seu mundo. Mesmo sentindo seu coração diminuindo por entre batidas cada vez mais esparsas, ela sabia que era preciso fazer daquele corte vida. E foi assim que ela percebeu uma coisa que lhe escapou por quase toda uma eternidade.
Ela era única....
Seu sangue espalhado em formas suaves pelo chão, onde as rosas florescima cada vez mais cheias de pétalas em formas de nuvens que lhe sorriam. Por segundos embaixo da escada, sofrendo a vergonha de mais um dia ser considerada uma aberração, sente seu corpo esvaziar o ódio gota por gota, peixe por peixe.

O apertar de seu corte esparrama tela branca por entre o chão decorado com pontas de cigarro e pedaços de papel. Uma linha escorrendo por entre seus olhos continuamente despejava alívio na forma de marés e ondas que levavam os habitantes que eram nascidos em tons avermelhados, desenhando em cimento uma, ressurreição em nicotina apagada.

Não mais guarda a cerração de alma que lhe corroia a pele, apenas espera o desenho amalgamar-se com o chão quente daquele outubro. Ao apoiar e levantar-se suas mãos trêmulas em êxtase tocam as gotas espalhadas. Filho de sangue querendo voltar para a essência, voltar de onde jamais deveria sair.

Do corpo completo que levitava em direção aos peixes que a salvaram e a lembraram do dia de sua criação.

O oitavo....