E naquele momento todo seu corpo pareceu desaparecer de uma vez só no caminho do banheiro. Deparou-se com o espelho, ele lhe sorri e responde:
"Se está lá, não é verdade. Você pode estar enganda bela adormecida, as coisas não são assim. Você pode esperar pelo momento certo para se livrar desse corpo. Pode esperar mais um pouco e sentir toda a escala ritcher passando pelo seu corpo. Porque estar lá não quer dizer que existe".
E assim sua memória saiu por entre a fresta da porta que a essa altura já se iluminava com os primeiros raios rosas de uma manhã de julho. Virou-se encarou o espelho e enxergou-se na sala de cirurgia. Onde sua mãe a segurava por entre as sobras de clara fetal e cordão umbilical.
"Não poderia ter sido assim. Eu lembro como ela era, a toquei. Foi minha primeira mulher. Senti seus seios por entre meus lábios. Eu deveria saber com e quem seria minha primeira experiência somato sensitiva.
Porque eu não me lembraria desses dois botões?
Como não associar pele e pessoa?"
Mas não lembrava, por mais que perguntasse para aquele espelho fétido, não havia resposta. E ao colocar suas mãos nas frestas sentiu o vidro tomar conta de todo seu corpo.
Fazendo-a arrepiar, deixando o vidro escorrer por entre suas mãos. Entrando por sua boca até fazer com que sua garganta fosse invadida pelos estilhaços e se calasse com todas as dúvidas.
"Quem era ela, quem sou eu?????"
Enfim sentiu-se pronta.
Certa de tudo o que faria, já sabia a sequência. Era só pegar a navalha e cortar o pescoço (afinal de contas os pulsos só iriam tornar-se um problema maior se ele acordasse).
Por isso seria rápido e kobainiano, tudo que ela sempre quis era descobrir-se.
Mas "just ´cos you feell , doesn´t mean it´s threre".
Ela escuta então um sussurro em seu ouvido ao entrar pelo banheiro:
"Não vá, eu te amo".
Ele adormecido tocava seus dedos nas bordas dos lençóis cálidos, estava bêbado demais ou de menos para poder dizer isso.
Mas ela não queria saber. Coma induzido por alcalóides agora não. A voz novamente interrompe as nuvens de pensamento: "Eu te amo".
Isso não existia, mas ficou claro quando viu do espelho sairem artelhos agarrando sua mão.
Parou por um instante a última caminhada. "Será que é ela?".
"Ela me achou e eu nunca consegui, será que deus é muito mais que apenas Andy Kauffman?
Será que isso pode acontecer, ela vira-se e diz: Mãe!?".
Nenhuma voz mais responde. Sozinha como sempre, desde os tempos onde escondia-se embaixo de uma escada. Atrás dos óculos de aros grandes desafiando o equilíbrio nasal. Quando sentava sozinha enquanto todos os meninos riam da sua cara lhe dizendo que nunca iria ser aquilo que queria.
Porque havia nascido ao contrário.
Lembrou-se daquela escada, a primeira figura paterna de sua vida.
Por entre todos os degraus de madeira de lei, decorados por arabestos em cor de ferro número 5. Lembra de todos os desenhos desconexos que o desgaste das grades formava e de como eles sempre lhe sorriram e diziam: "Não te preocupes, isso vai passar".
Enquanto os garotos da escola a chutavam, desprovendo sua feminilidade como se fosse um saco de lixo.
Fazer com que ela se sentisse um nada. Todos os socos e vezes que rasgaram o Sartre que lia.
Por mais que sua garganta clamasse, tudo era abafado pelos escárnios das meninas que a chamavam de anormal. Zombavam enquanto ela se escondia dentro do banheiro, desejando um teletransporte rápido.
Desde sempre ela não entendia como era diferente. Como todas as vezes que parava em frente a uma planta ficava maravilhada com as cores que saiam pelas suas pétalas e de como tudo fazia tanto sentido em cada estática métrica de epiderme. Era como se estivesse ligada a Neo. E ele à ela (follow the white rabbitt). Ia até as profundezas e sentia toda a energia de já saber como era maravilhoso nascer menina.
Todas as nuances, por mais pequenas que fossem, eram maravilhas dentro de um pequeno corpo. Sabia que todas as canções eram feitas pra ela, porque podia sentir em cada nota todo o amor e desespero. Todas as consequências de doar-se dentro de uma cantiga de amigo ou até de um bolero de Ravell.
Era isso que ela sabia, que era uma menina. Sozinha desde os seus 8 anos, execrando cada pedaço de sua pele branca que crescia tornando-se envoltório de um corpo esguio. Fazendo com que seus olhos e cabelos negros, fossem duas imagens de satélite guiadas pelo amor de Lou Reed. Mas ela tinha apenas amigos em livros e nos espelhos, que nunca refletiam nada.
Apenas diziam:
"Just ´cos you fell it doesn´t mean it´s there".
Andy sentado embaixo do rodapé da porta lateral da cozinha, acende um cigarro e ajeita a aba do boné vermelho escrito Mudhoney. Sabe que o namorado dorme, mas não importa-se.
Traga e de sua fumaça um arcanjo negro desenvolve círculos dentro do vácuo de ar do banheiro. Ele abre suas asas e a envolve, tocando o sexo dela por demorados segundos. Andy sorri e cerra seus punhos, o arcanjo se dissolve em moléculas de pétalas ao redor da figura de menina, que solta delicadamente a navalha na pele de seu braço e desenha a palavra livre.